Segunda-feira, 6/9/2010
 
 
 
 
Desconhecimento da Amazônia
6/4/2009 :: 08:16
Arthur Virgílio

O senhor - ou a senhora - conhece a Amazônia? É a pergunta que dirijo a todos os brasileiros. Se a resposta for afirmativa, acrescento: Conhece mesmo? Já andou por lá? Já leu alguma coisa mais aprofundada sobre a região, além dos ínfimos resumos dos livros escolares?

O mais provável, se a pessoa não é habitante da região, é que a resposta seja, sinceramente, não. Isto porque a imensa maioria não conhece a Amazônia. Tem dela uma idéia, um tanto romântica. Pensa logo na imensa cobertura florestal - ou nas grandes e criminosas queimadas - nos gigantescos cursos d"água, em índios, jacarés, botos, talvez até na Zona Franca de Manaus. Gosta da região, ama-a, mas não a conhece.

Isso se aplica inclusive aos políticos, aos dirigentes do país. Dificilmente, se encontra um político que, não sendo da região, esteja preparado para debatê-la em termos convincentes. É muito fácil amá-la e é muito fácil não conhecê-la. É muito fácil estimá-la. É muito fácil se fascinar com ela. E é muito difícil, talvez, para alguns, mergulhar nos livros e nas informações que os levem a compreender aquela que é a última fronteira de desenvolvimento deste país. Sem ela, o Brasil seria um país comum; com ela, o Brasil pode vir a ser a grande potência econômica com a qual todos sonhamos.

A Amazônia continua sendo estudada até por potências hoje militar e economicamente secundárias, como o país que mais amo depois do meu, que é a França. Lá, pagam-se vultosas bolsas de estudo para mestrados e doutorados em temas amazônicos - e os resultados muitas vezes saem tortos, porque lhes falta um coisa essencial, que é o trabalho de campo. De qualquer modo, entretanto, traduzem o interesse pela região. Não sei quantas universidades brasileiras poderiam nos dizer que estão concedendo bolsas para esse fim. Talvez nenhuma. A ignorância é lamentável. Isso precisa acabar. Não é mais possível discutirmos uma região que tem de ser tratada com base no conhecimento empírico dos moradores da região, com base no acúmulo científico de entidades como o museu Goeldi, do Pará, e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Inpa.

Sai ano, entra ano, e as pessoas simplesmente repetem as mesmas coisas. Uns têm a cabeça nos anos 50, com o memorável slogan "a Amazônia é nossa"; outros têm a cabeça na lua. Conhecer a Amazônia, região mais relevante, estrategicamente, do país, é obrigação. Brasileiro que não a conhece terá que ter dificuldade de dizer que, de fato, é brasileiro. Para mim, é questão de honra: seja quem venha a ser o candidato a presidente da República do meu partido, ele não será ignorante em Amazônia, nem que eu tenha que lhe abrir a cabeça, colocar dez livros lá dentro e fechá-la em seguida. Não aceitarei candidato que venha com informação do Google ou de assessor engravatado que lhe dá um briefing quando o jatinho está quase pousando. Não aceitarei ignorância a respeito da minha região. Se for da parte de adversários, eu a criticarei duramente. De correligionário, não aceito. Afinal, como se pode pretender dirigir o país sem conhecimento de sua mais estratégica região?

Arthur Virgílio é senador pelo Amazonas, líder do PSDB e escreve em A Gazeta aos domingos

Fonte: Jornal A Gazeta
 
 
 
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