Quinta-feira, 9/9/2010
 
 
 
 
Frigoríficos
22/6/209 :: 09:08
Em balanço publicado em novembro de 2008, o frigorífico Independência S.A destacou um cenário bastante promissor. Comparando o terceiro trimestre de 2008 com igual período de 2007, a empresa enfatizou aumento de 30% no abate, crescimento de receita bruta em mais de R$ 700 milhões, expansão do volume de venda em 55%, melhores preços (16%) para a carne, vantagem ao exportador em função da desvalorização cambial, contratação de mil 1.000 trabalhadores e um EBTIDA (embidá) superior a 85%. O que é o EBTIDA? O indicador mede o desempenho da empresa antes dos gastos financeiros. Mas o panorama positivo não parou por aí. A empresa se fortalecera no mercado interno (60%), planejava a instalação de novas unidades no Paraguai e novas incursões em Mato Grosso - Confresa e Colíder.

Como números tão otimistas se transformaram em tantas incertezas já no início de 2008?

No referido balanço de set/2008 é mostrado um cronograma de amortização de R$ 3,7 bilhões até 2015, sendo que deste total, mais de 50% vencia em nov/2008. Essa vulnerabilidade da empresa aos elevados encargos proveniente de empréstimos, nos dá uma idéia do montante das dificuldades de solvência do grupo Independência. A receita de vendas no balanço era suficiente para pagar somente 50% dos valores pendentes de amortização. Se acrescentamos outras despesas essenciais como folha de salário e energia o quadro ficará mais desafiador.

Enquanto no 3º trimestre de 2007 o resultado financeiro líquido era de R$ 30 mil negativos, este número saltou para quase meio milhão negativo no 3º trimestre de 2008. Da dívida vigente em maio/2009 (R$ 3 bilhões), os pecuaristas eram credores de R$ 50 milhões, menos de 2%. Será que há um evidente problema de gestão, já que 98% da dívida do frigorífico está associada a outros itens de custo que não a atividade finalística, ou seja, aquisição de plantel para abate?

Na realidade o posicionamento otimista constante nas notas de balanço, em geral é um mecanismo adotado pelas organizações para eliminar presságios negativos, ou ao menos, abrandá-los. Daí, haver as “quase crenças” em futuros alvissareiros nem sempre seguidas de esforço concreto para realizá-los. A antecipação de prosperidade em 2008 culminou em efeitos colaterais como a redução de postos de trabalhos e menos impostos. Agora, é imperativo repensar estratégias para revigorar os elos da cadeia da pecuária em Mato Grosso. É certo que deve haver mudanças qualitativas na gestão dos negócios. Para isso, é provável que haja interessados em relatórios detalhados acerca da sucessão de eventos que levou vários frigoríficos à desconfortante situação atual. Há muitas causas em jogo, entre elas, confirma-se contingências internacionais, custos desalentadores para investimentos, estratégias expansionistas equivocadas e quebra da confiança nos operadores do setor. A produção de melhores análises da situação dos frigoríficos é crucial, visto que este aprendizado evitará recorrências similares no futuro. Esperemos que a recuperação judicial com todas os suas imperfeições possam, de fato, recolocar frigoríficos em nova rota de sustentabilidade.

* PAULO CÉZAR DE SOUZA é mestre em economia pela UFMT e gestor governamental
Fonte: Jornal Diário de Cuiabá
 
 
 
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