Segunda-feira, 6/9/2010
 
 
 
 
Qual o benefício da floculação?
A viabilidade econômica da floculação depende muito do incremento que ela propicia na eficiência alimentar (ganho de peso por kg de matéria seca ingerida). Segundo Vasconcelos, Ferreira Neto e Bungenstab, uma melhoria de 4,75% nesse índice já justificaria o investimento em projetos para 40.000 bovinos. Os cálculos foram feitos com base numa dieta com 50% de milho e custos por animal/dia obtidos junto à Marca Agropecuária, de Barra do Garças, MT. Para os técnicos, não é difícil atingir incrementos de 4% ou 5% na eficiência alimentar com a floculação. Trabalhos realizados pelos nutricionistas norte-americanos Richard Zinn e Fred Owens chegaram a percentuais de 11% a 12%.

A expectativa é de que se consiga, no Brasil, incrementos maiores (20% em relação ao grão quebrado), pois o milho nacional é do tipo flink (duro), com predominância de endosperma vítreo. Ou seja, a melhoria na digestibilidade poderá ser superior à do milho americano, que é do tipo dentado (mais mole, com maior teor de endosperma farináceo). Segundo Robert Zinn, a floculação aumenta em 19,8% o teor de energia líquida de ganho (Elg) do milho dentado, em comparação com a moagem. Flávio Portela espera resultados semelhantes ou maiores com o grão brasileiro, mas somente terá dados reais após a conclusão da pesquisa que iniciará nos próximos meses, com quatro técnicas de processamento de milho e sorgo: floculação, moagem fina, moagem grossa e grão úmido.

Objetivo

“Vamos acompanhar o desempenho de 120 machos zebuínos por tratamento, medindo seu ganho de peso individual e seu consumo de alimento, para calcular o índice de conversão alimentar. Também vamos observar a digestibilidade do milho nos quatro tipos de processamento, monitorar e excreção de grãos via fezes, verificar a incidência de acidose, de abcessos no fígado, etc”, informa Portela. A dieta conterá 10% de feno e 90% de concentrado com 80% de milho, mais uréia, melaço, óleo de restaurante e núcleo. As primeiras informações sobre a floculação de grãos brasileiros estarão disponíveis no final deste ano, mas o experimento somente será concluído em 2009.

Segundo Portela, quando os floculadores estiverem funcionando no País, será necessário desenvolver trabalhos de pesquisa sobre o tempo ideal de vaporização, temperatura e ajuste dos rolos, visando identificar a densidade adequada de flóculo para o milho brasileiro. “Se ele ficar muito fino, haverá risco de acidose, o equipamento funcionará mais devagar, o rendimento será menor e o processo mais caro: se ficar muito grosso, não floculará direito, haverá perda de digestibilidade. Nos Estados Unidos, se trabalha com 350g de pressão por litro nos rolos”, explica o professor da Esalq.
Dúvidas

Ainda existem muitas perguntas sem resposta. “A floculação sempre foi carta fora do baralho no Brasil, por causa do custo da energia, que era muito alto em comparação com o preço do grão. Ficava mais barato comprar mais milho do que investir em processamento. Agora, com o milho caro, abre-se espaço para a floculação, mas ainda não sabemos qual será o benefício (talvez 15% - 18%), nem o custo da energia. Sou conservador em relação à viabilidade econômica da floculação, ainda não compraria para um confinamento meu”, salienta Dante Pazzanese Lanna, também professor da Esalq, acrescentando que tudo depende do preço da energia e do milho. “Em Mato Grosso, onde esse grão custa R$14 a saca, não compensa flocular; em São Paulo, com o milho a R$ 28 e a energia mais barata, pode haver benefício”, pondera.

Marcos Baruselli, técnico da Tortuga, também é cauteloso: A floculação comprovadamente melhora o valor energético do milho, mas a que custo no Brasil? Outra coisa: se usarmos 70% - 80% de milho floculado na dieta, o que acontecerá com o Nelore? Sou a favor da floculação, desde que se trabalhe com parâmetros confiáveis, tanto técnicos quanto econômicos”, salienta ele. Paulo Leme, professor da Unesp – Pirassununga, não questiona a viabilidade dessa tecnologia – “pois ainda é muito cedo para emitir opinião” – mas aproveita para defender a silagem de grão úmido. “Trata-se de um método interessante e de custo menor. Deveria ser mais utilizado pelo produtor, pois permite colher o milho cedo, com alto valor nutricional e com poucas perdas. Pode perfeitamente ser usado por confinamentos maiores”, salienta Leme.

História

O Brasil apenas está começando a pensar em processamento de milho. Nos Estados Unidos, isso já está consolidado. De acordo com John Matsushima, ex-professor da Universidade do Colorado e um dos pais da floculação de milho para alimentação de bovinos, a técnica começou a ser utilizada oficialmente nos Estados Unidos, em 1.962. Um dia, ele estava tomando café da manhã com sucrilhos em companhia de três grandes confinadores americanos (Warren Monfort, Louis Dinklage e Earle Brookover), que frequentemente se queixavam do custo da alimentação do gado, quando ele pensou: “Por que não tratar animais confinados com flóculos de milho?

A identificação do equipamento adequado para esse processo levou cerca de 2 anos. A parte mais difícil foi equacionar a questão do vapor. Os resultados dos primeiros experimentos na Colorado State University convenceram a família Monfort a implantar o processo em seus confinamentos comerciais. Em 1,964, o grupo Monfort já tinha 16 floculadores instalados. Hoje eles são corriqueiros no país.

 
 
 
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