Quinta-feira, 9/9/2010
 
 
 
 
Consórcio PROMISSOR
Projeto da Embrapa Rondônia propõe uso de resíduos florestais na alimentação de ruminantes.

A preservação dos recursos naturais renováveis é questão primordial para a sustentabilidade dos sistemas agropecuários, principalmente em se tratando de propriedades familiares de base ecológica em que a qualidade de vida é uma questão de sobrevivência. Diante de uma consciência preservacionista, o principal mandamento é não poluir e, paralelamente, encontrar alternativas para despoluir os recursos contaminados.

Dentro dos preceitos da agricultura de base ecológica é importante o aproveitamento de recursos naturais renováveis, a reciclagem de lixo orgânico e de resíduos, a adubação orgânica e a humidificação do solo, a adubação mineral pouco solúvel, o uso de defensivos naturais, o controle biológico e mecânico de insetos e ervas, a permanente cobertura do solo e a adubação verde.

E o equilíbrio de sistemas agroecológicos depende diretamente da reciclagem da matéria orgânica e da maximização e otimização do fluxo da energia nos agroecossistemas, capazes de gerar estabilidade ecológica, social econômica nos sistemas de produção.

No caso do acúmulo de resíduos sólidos na agroindústria, gera-se impacto econômico, porque exige-se gasto de energia para o transporte dos mesmos até aterros sanitários. Quando isso não é possível, os resíduos são estocados próximos ás áreas de produção, sem uma alternativa de destino final definida, o que pode gerar problemas sanitários e ambientais. Por outro lado, na maioria das vezes, esses resíduos apresentam potencial para serem transformados em insumos agrícolas de baixo custo para serem utilizados nas proximidades das áreas onde são gerados.

Uma maneira de aproveitamento de resíduos agroindústrias é na alimentação animal, em especial, dos ruminantes que têm a capacidade de aproveitar fontes ricas em lignocelulose, presente nas fibras vegetais. A utilização destes resíduos, no caso, é de grande importância, já que o uso de grãos como a soja e o milho apresentam preço elevado e concorrem com a alimentação humana.
Neste cenário, vários projetos voltados para a agricultura familiar já foram implantados no estado de Rondônia. Um dos mais promissores e bem-sucedidos é o Projeto RECA ( Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado), desenvolvido no distrito de Nova Califórnia, município de Porto Velho, capital do Estado. Localizado a aproximadamente 390 quilomêtros do do centro do município, próximo à divisa com o Acre, o distrito tem uma população aproximada de 15 mil habitantes.

O projeto surgiu a partir de um assentamento o Incra em terras que foram entregues aos colonos brasileiros pelo gorverno, em 1984, sem que houvesse acompanhamento ou apoio técnico e financeiro para cultiva-lás. Diante do abandono e das adversidades, como doenças tropicais, especialmente malária e dengue, os pequenos produtores se organizaram para desenvolver estratégias que lhes permitissem melhorar a renda e as condições de vida.

Por meio da Associação dos Pequenos Agricultores (APA), foram implementados Sistemas Agroflorestais (SAFs), recuperadas áreas que estavam deterioradas e os principais atores comunitários foram capacitados para trabalhar nesses novos sistemas. Os SAFs são formados predominantemente por castanha-do-Brasil (Bertholletia exclesa H.B.K.), pupunha (Bactris gasipaes Kunth) e cupuaçu (Theobroma grandiflorum), cujos produtos são processados na agroindústria dos associados.

PRODUÇÃO

A produção da safra de 2007 foi estimada em 350 toneladas de polpa de cupuaçu, 40 toneladas de manteiga de cupuaçu, 5,3 toneladas de óleo de castanha, 15 toneladas de semente de pupunha e 176.000 hastes transformadas em 39 toneladas de palmito de pupunha. Essa produção gerou, no mesmo ano, aproximadamente, 40 toneladas de resíduo da extração do óleo de cupuaçu (de maio a dezembro/2007), 3 toneladas de resíduo de extração do óleo da castanha (de outubro a novembro/2007), 20 toneladas de resíduo da extração de palmito (dezembro/2006 a abril/2007) e 700 kg de resíduo do processamento da semente lisa da pupunha (novembro/2006 a julho/2007).

Esses resíduos produzidos pela agroindústria foram distribuídos entre os agricultores associados e utilizados na alimentação animal ou na cobertura do solo em algumas culturas, mas de forma completamente empírica e ineficiente, já que a composição química dos resíduos é desconhecida e nenhum pré-tratamento é adotado para aumentar a vida útil dos mesmos.Como a quantidade produzida é elevada e sazonal, estudos preliminares são necessários para verificar as melhores condições de estocagem dos mesmos, visando a diminuir as perdas devido ao crescimento de microrganismos indesejáveis, o que constitui um grave problema para a comunidade.

Neste caso, um estudo para avaliar o aproveitamento de resíduos agroindustriais na alimentação animal pode trazer benefícios não só para o meio ambiente, mas também para o produtor que tem a oportunidade de reduzir os custos de produção, diversificar a renda pela possibilidade de comercializar os resíduos pré-tratados, aumentar a margem de lucro e favorecer a sustentabilidade do sistema.
No Brasil, alguns resíduos agroindustriais já são considerados coprodutos por serem produzidos em larga escala e possuírem protocolos de tratamento que viabilizam sua comercialização para uso na alimentação animal.Como exemplos, podem ser citados a casca da soja, a polpa cítrica, o farelo de girassol, entre outros.

Os subprodutos da agroindústria podem ser fontes valiosas de proteína, energia e fibra para animais de interesse zootécnico e, tradicionalmente, estes subprodutos têm sido utilizados para substituir concentrados energéticos ou protéicos e até forragens (NRC, 2001). Porém, para se saber se esses subprodutos podem substituir fontes tradicionais de alimentos concentrados ou volumosos na dieta de ruminantes são necessários estudos primários para caracterização nutricional dos mesmos e avaliar a viabilidade técnica e econômica em ensaios com animais.

A utilização de subprodutos da agroindústria na alimentação animal e em especial na alimentação de ruminantes vem sendo alvo de várias pesquisas desenvolvidas em diferentes centros de pesquisas brasileiros que buscam fontes regionais de alimentos de baixo custo. Mesmo assim, existem poucas informações disponíveis na literatura sobre o valos nutricional e a forma de utilização dos subprodutos gerados na região da Amazônia Ocidental, em especial no estado de Rondônia.

Sabe-se que após a extração do palmito da pupunha sobram folhas, bainhas, parte dos caules e os frutos, que podem ser utilizados na alimentação de ruminantes. Estudos já avaliaram amostras de subprodutos da extração do palmito de pupunha provenientes de uma agroindústria localizada no litoral sul da Bahia e verificaram que a entrecasca da pupunha apresentou teores muito baixos de matéria seca (MS) e de proteína bruta (PB) (10 e 9,6%, respectivamente) e elevados teores de fibra em detergente neutro (61,6%) e ácido (38%), caracterizando este subproduto como volumoso.

Outras pesquisas mostraram que os frutos da pupunha com e sem o caroço enquadraram-se como concentrados energéticos, pois apresentaram menos de 20% de PB (5,4 e 7,0%, respectivamente) e baixo conteúdo de parede celular. Há quem tenha avaliado, ainda, o desempenho de bovinos cruzados com 392 kg de peso vivo e 36 meses de idade tratados com 1,5 kg/dia, 3 kg/ dia e 4,5 kg/dia de concentrado e subproduto da extração de palmito de pupunha “in natura” ( 10,0% PB, 62,0% FDN, 50,0% FDA, 30,0% de celulose e 15,0% de lignina) e observou ganhos de peso de 0,796 kg/dia; 0,920 kg/dia; e 0,858 kg/ ia, respectivamente.

Os resultados observados nesses estudos demonstram que os subprodutos da extração do palmito da pupunha apresentam potencial para uso “in natura”, logo aos a extração do palmito, ou preservado na forma de silagem. Os estudos para avaliar o valor nutricional da castanha e do cupuaçu são desenvolvidos visando à alimentação humana (Souza e Menezes, 2004).

Considerando que o estudo de Rondônia não é um produtor expressivo dos ingredientes tradicionalmente utilizados em rações para animais domésticos, como o milho e a soja, os resíduos gerados nos SAFs podem ser considerados como potencial nutricional e como alternativas regionais mais econômicas para alimentação de animais domésticos, especialmente ruminantes.
 
 
 
O Governo cumpriu as promessas referentes à Reforma Agrária?
Sim
Não
Av. Historiador Rubens de Mendonça, 2254, Edifício American Business Center, Sala 304 - Bosque da Saúde - (65) 3023-1265