Quinta-feira, 9/9/2010
 
 
 
 
Boi inteiro, zelo redobrado
São muitas as vantagens de se manter os bois inteiros, em relação aos castrados. No manejo, a regra número um é conter o apetite sexual dos mais jovens.

Na década de 80 escrevi um artigo intitulado “Castrar ou não: eis a questão”, que gerou grande discussão. Nele eu mostrava em números as vantagens de se manter os bois inteiros, em relação aos castrados, os inteiros ganham até 15% mais peso, comem 10% menos para cada Kg de ganho de peso, chegam á idade de abate de 0,5 a 1 ano mais rapidamente e não correm risco de emagrecer e de morrer devido ao processo de castração.

Recebi uma dezena de cartas de pecuaristas e técnicos. A maioria concordou, e um ou outro indagou sobre como manejar esses animais e vencer a resistência dos frigoríficos, que não os compravam ou pagavam por eles o preço de vaca. De poucos anos para cá, devido á pressão de pecuaristas os frigoríficos passaram a comprar bois inteiros, representam 60% dos bois confinados de uma grande associação.

Depois de ter muitos lotes de bois inteiros, compreendo a preocupação de muitos em relação ao manejo, em especial no caso de fazendas que fazem cria, recria e engorda. O primeiro fato que deve ser pontuado é a idade. Só vale a pena criar bois inteiros se forem vendidos para o confinador até os 26 meses de idade, ou diretamente para frigorífico aos 30 meses. Acima disso a vantagem da não-castração se anula.

O novilho de até 30 meses é um jovenzinho em puberdade. Bois inteiros produzem em seus testículos um hormônio (testoterona) que funciona como anabolizante natural. Nos animais mais jovens, a testosterona estimula a maior formação de musculatura e a menor deposição de gordura na carcaça, além do aproveitamento melhor dos alimentos. No boi erado, o excesso de hormônio testicular o leva a desenvolver mais a atividade sexual; em conseqüência, o animal come menos, se torna mais agressivo e de difícil lida. É bom lembrar que a puberdade se inicia alguns meses mais cedo no gado europeu que no zebu.

Assim, a regra numero 1 do manejo é diminuir o estimulo sexual dos jovens. Para tal, o lote de machos deve ser mantido o mais longe possível das vacas e de seu conato visual. Após a desmama, os novilhos não devem voltar a conviver com vacas, para evitar que sejam estimulados precocemente. Atividades como vacinação, vermifugação, pesagem etc. Devem ser feitas em separado ou em dia diferente do dia de manejo das vacas.
Outro ponto fundamental é quanto à idade dos lotes. Bois com mais de 1,5 ano não devem de jeito nenhum ser criados com lotes mais jovens, pois estes poderão ser vitimas sexuais dos mais velhos. A introdução de animais novos no lote também estimula a competição pela liderança, e acontecem as brigas. As cercas dos piquetes de lotes mais velhos precisam ser reforçadas, para se evitar que algum animal as arrebente, para fugir ao encontro das vacas.

Um novilho é como um adolescente que necessita de atenção e cuidado especiais. O Contato diário com os lotes é fundamental para acalmá-los e facilitar a lida na troca de piquetes e outras manobras. Os trabalhadores devem ter um jeitinho especial de se comunicar com o lote durante a alimentação diária. O mesmo aboio ou assovio para chamar o grupo é sempre bem-vindo. Esse convívio sadio facilita o manejo no curral. Em contraste, pauladas, maus-tratos e gritos tornam o lote mais agressivo, complicam a lida e diminuem o ganho de peso.

Independentemente da idade, é importante acompanhar o comportamento sexual do lote. É comum e normal um novilho “pular” no outro de maneira não obsessiva e prolongada. Porém, verifiquei que mesmo em lotes homogêneos, em peso e idade, para cada 25 novilhos um é escolhido para ser a “fêmea” do lote. Quando isso ocorre, muitos machos passam a persegui-lo insistentemente, o que provoca a diminuição do ganho de peso dos agressores e do agredido. Não tem jeito: o “coitado” tem que ser criado isoladamente, se possível entre as novilhas ou vacas. Surpreendentemente, os bois castrados são menos procurados pelos inteiros que certos novilhos. Assim, a convivência e criação conjunta entre capões e inteiros são normais e oportunas.

Nos últimos tempos, um maior número de pecuaristas tem optado pelo uso de novilhas para abate precoce. Fiz uma experiência de criá-las juntamente com novilhos de até 1,5 ano de idade. Tive muito êxito com novilhas de até 14 meses de idade, no caso de gado europeu, e 19 meses, de zebu. Quando surgem os primeiros cios, a atração dos machos é intensa, e as fêmeas devem ser separadas. Nesse momento, se bem manejadas e alimentadas, elas jê estarão com 10 a 11 arrobas, e com um pequeno semi-confinamento estarão prontas para o abate.
 
 
 
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